Nessa noite, D. Antónia não pregou olho, excitada pela novidade do encontro com o primo. Virava a cabeça para um lado da almofada e via-se de novo sentada no automóvel em que ele, gentilmente, a tinha trazido a casa. Que carro lindo e moderno!... E como ele conduzia bem!... Virava a cabeça para o outro lado e acudia-lhe um tropel de lembranças do tempo em que ela era rapariga e o primo não era ainda primo - pois só tinha passado a sê-lo depois que o casamento a fez entrar na família do marido, esse sim, primo natural do parente reencontrado, que ela só o era por afinidade.
Nessa época distante, era ele ainda só o Zé Costa, rapazola estouvado e leviano que não parava mais que uma semana num emprego e tinha fama de namorar todas as raparigas das redondezas. Até a ela... Bem, fama talvez não, que Antónia era discreta. Mas proveito, sim. Ah, como ela estremecia com aquele jeito atrevido dele!... Ainda hoje se lembrava do fim de tarde de inverno em que se tinham os dois abrigado da chuva numa casa em ruínas, então existente no cimo da rua. Caía que Deus a dava! A toalha de nuvens negras do céu escurecera tudo de repente. Antónia refugiava-se cada vez lá mais para o fundo do casebre, tropeçando em cacos e objectos caídos, sem nada ver, a fugir às goteiras que pingavam do telhado esburacado. E então ele, sem pedir licença, apertou-a pela cintura, dobrou-a toda com força, encheu-a de beijos, procurou-lhe os seios, levantou-lhe a roupa... Antónia fugiu espavorida mas jamais esqueceu tamanho e impetuoso calor. E ainda conservava a cálida lembrança, apesar dos trinta e alguns anos de permeio, do prazer delirante das mãos dele, nervosas e quentes.
O que Zé Costa tinha de atrevido e leviano, tinha ela de prevenida e atilada. Por isso abafou os ímpetos juvenis e ouviu os conselhos dos familiares para se desviar dele, estroina sem tino nem futuro, e aceitou namoro ao Amílcar Costa, primo do apaixonado. Esse sim, toda a gente concordava, era um rapaz respeitoso, atilado e com futuro - aos vinte e dois anos já tinha lugar certo como funcionário do Estado e amealhava na Caixa Económica, mensalmente, uns dinheiritos para um dia que constituísse família.
Mas, os homens põem e Deus dispõe. Afinal, o ditado era certo. O marido subira umas letras, ganhara uma ou outra promoção, mas nunca passara de um empregadito medroso que contava os tostões a ver se esticavam até ao fim do mês. O primo, entretanto, casara com a rapariga mais deslavada da rua, uma tal Bia de que ninguém se dava conta, apagada por tímidas vergonhas, sempre enfiada a um canto, sem nunca levantar a voz nem os olhos, e tão magra que quase se lhe contavam os ossos. Abalara com ela para a Alemanha e regressava todos os Verões, em gozo de férias. E, de ano para ano, vinha mais endinheirado, mais abraçado à mulher - que criava carnes e desabrochava em vivacidade e, pasme-se, em boniteza!... - e extremoso pelos filhos que lhe nasciam com intervalos regulares de três anos.
Ah, talvez fosse daquela tristeza e vazio em que vivia, mas D. Antónia ficara tão feliz por voltar a ver o primo! E ele também lhe parecera tão satisfeito de a reencontrar, até lhe viera com aquela história das termas. «Porque é que a prima fica nas termas de baixo?», dissera ele, «Olhe que as termas de cima são outra coisa, digo-lhe porque conheço as duas. São mais acolhedoras, maiores, cheias de jardins e parques com repuxos e fontes, é um prazer passear a pé por aqueles sítios. As de baixo são só o hospital e pouco mais e estão cheias daquela gente muito velha que só pensa e fala em doenças. Venha antes para as de cima, que são mais animadas, e eu faço-lhe companhia.»
D. Antónia voltava-se para um lado da cama e depois para o outro. Estava visto, não conseguia mesmo dormir e aquela preparava-se para ser mais uma noite em claro. Ah, mas não se iria ralar com isso. E não tomaria nenhum comprimido, estava decidido, quando o sono viesse logo dormia. Não me vou mortificar mais, pensou. Decidida, levantou-se da cama e enfiou o robe.
Foi até à cozinha e abriu a caixa dos bolos. Já estava quase a trincar um, comprido e com uma cobertura escura e fina de chocolate, quando uma força desconhecida, que não entendeu bem donde vinha, a deixou de braço no ar, o bolo junto aos dentes entreabertos. Voltou a meter o bolo na caixa, fechou-a, apertando a tampa com cuidado, e guardou-a no armário da despensa. «Não, coisas que engordem vão ser racionadas!» Falou tão alto e com tal determinação que quase se assustou com o som da própria voz. Mas foi calmamente, sem a tortura desenfreada dos costumeiros apetites e fomes, que descascou uma maçã, de que comeu metade.
Pelo estore entreaberto da janela, as luzes da cidade, que nunca se apagam, cintilavam no negrão da noite. E D. Antónia só não abriu completamente o estore e os vidros e se debruçou toda sobre a rua porque o bom senso lhe disse que era inverno e fazia frio. Mas deixou-se ficar ali, encostada à janela, a olhar aquelas luzes cintilantes - ou eram estrelas? -, sem sentir o frio, sem se lembrar das suas dores, e com um sentimento manso, indefinido mas bom, a crescer-lhe no peito. Sentia que estava viva e que era bom viver. Viver, viver... E aquele calor que lhe crescera no peito corria agora nela toda e trazia-lhe as imagens da filha e do genro, do filho e da nora e dos netos. Eram todos tão bons para ela e, se lhe não davam mais atenção, era porque viviam todos nesta corrida aflitiva contra o tempo que era a vida das pessoas modernas. E ela que estava sempre de má cara e chorosa... E os netos, todos ainda tão crianças e tão bonitos... Ah, os mais novos, havia de levá-los a passear no parque, sentir as mãozinhas deles, pequenas e confiadas, na sua mão grande de avó; e limpar-lhes a cara enlambuzada dos gelados e rir com eles na ingenuidade das brincadeiras infantis. Com os mais velhos, quando lhe viessem contar como correra a festa do colégio, nunca mais lhes diria que a deixassem em paz ou que estava muito doente; e nunca mais se afligiria com a algazarra que faziam com aqueles jogos de computador; e, quando a viessem visitar, nunca mais os proibiria de brincar à vontade no corredor e por entre os móveis da sala. Ah, e daria à nora aquele alfinete de ouro com pedras vermelhas, que guardara do tempo de solteira, e que sabia que ela cobiçava. A nora gostava tanto de jóias antigas e era tão bonita e as jóias ficavam-lhe tão bem e o filho era tão apaixonado pela mulher e ela por ele e, afinal, era uma grande felicidade o filho ter um casamento feliz. Também com a filha, nunca mais faria aquela cara de desagrado com as opiniões do genro que tanto a aborreciam, pois a filha ficava aflita e ela tinha uma vida tão cheia de trabalho, e, ainda por cima, o genro tinha aquele problema de ser doente do estômago, por isso mesmo, mais uma razão para apoiar o genro e a filha.
A noite clareava em tons rosa e as luzes e as estrelas empalideciam. Mas aquele sentimento quente e bom crescia no peito de D. Antónia e tornava-se forte, firme como um fruto maduro. O dia nascia e era bom viver!
(continua)
anamar - 1989
Publicado por vmar em fevereiro 4, 2004 06:23 PM